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quarta-feira, 9 de junho de 2010

D.Carlos I e Jão Franco

MEMORIAL REPUBLICANO


LI - D. Carlos patrocina a ditadura






O governo que João Franco organizara foi, nele 
próprio, uma contradição e uma mentira. 
Patrocinado por José Luciano de Castro, cuja 
doença e velhice lhe obstava a natural chefia,
 e levado ao terreno por João Franco, cujo
 partido por ele inventado era um 
arremedo de grandeza política, tal 
governo foi desdizendo tudo o que prometera. 
Franco declarara ser uma “ignóbil
 porcaria” a lei eleitoral que o seu 
antigo chefe regenerador preparara contra
 si; mas, mal se apanhou no Poder, não
 tomou a menor iniciativa para a substituir.
 O mesmo Franco prometera reformas 
e liberdades, dizendo querer 
“governar à inglesa”,constitucionalmente,
 e confessando intuitos de“caçar no mesmo
 terreno dos republicanos”, impulsionando 
Portugal para a modernidade e para
 a tolerância; porém, tornavam-se notórios
 os seus esgares de impaciência nas
 casas do Parlamento e fora delas, como 
se lhe fosse de todo impossível escapar
 à sua antiga sina de irritável déspota.
Aquele governo era também um enigma 
perante a opinião pública. Esta interrogava-se
 sobre se seria o franquismo a tomar 
conta do Partido Progressista, se seria 
este a absorver aquele, ou se cada um 
deles, servida a opípara refeição governativa,
 seguiria tranquilamente o seu caminho.
 Era isto que Hintze Ribeiro perguntava, 
utilizando as seguintes palavras: os dois
 partidos “ fundem-se e consubstanciam-se
 ou só se juntam, em termos eventuais,
 para um momento de acção governativa?”.
A crise, previsível devido aos tumultos que
 a“questão dos adiantamentos” provocara
 na Câmara dos Deputados, declarou-se
 sem disfarce quando os ministros da
 Justiça, José Novais, e dos Estrangeiros, 
Luís de Magalhães, apresentaram as suas 
demissões. Uma só pessoa, em tais 
circunstâncias, poderia propiciar uma
 continuidade aceitável de governo. Era 
necessário que o velho José Luciano de
 Castro lançasse a João Franco a bóia
 da salvação. Era forçoso que ele viesse
 dizer que a concentração liberal estava
 ali para durar e que o seu Partido
 Progressista ajudaria novamente o 
franquismo a aguentar-se no mando. 
Mas quando João Franco pediu ao
 patriarca do Palácio dos Navegantes 
alguns dos nomes mais sonantes para 
restabelecer o crédito do governo, a
 resposta que obteve foi um não rotundo,
 peremptório. João Franco naufragava.
 Ficava só, irremediavelmente só, nos
 termos previstos pela Carta Constitucional.
Foi aqui que emergiu um novo comparsa para
 uma farsa que iria terminar em
 tragédia. Esse comparsa foi o rei D.
 Carlos, Vencido suplente e admirador
 secreto de soluções rijas, musculadas. O
 monarca iria patrocinar a ditadura de
 um só homem contra todas as 
forças políticas organizadas de um
 Reino. É esta cegueira que torna
 tristemente espantosa tal decisão.
 D. Carlos sabia, tão bem ou melhor do
 que João Franco, que a ditadura
 deste iria desencadear-se contra
 a totalidade do pequeno mundo político
 lusitano: contra os regeneradores, que
 não perdoavam a cisão; contra os
 progressistas, que tinham posto fim
 à concentração liberal ; contra os
 dissidentes de Alpoim, que abominavam 
tanto o rei como o valido do rei; contra
 os republicanos, por motivos
 óbvios; contra os socialistas e os
 anarquistas, por razões ainda
 mais evidentes. Certamente poderia 
agradar a D. Carlos uma “vida nova”,
 tal como a previra Oliveira Martins, nos
 seus papéis de literato, de sociólogo 
e de economista … todo teórico. O
 penúltimo dos Braganças iria viabilizar
 o franquismo em ditadura, 
escrevendo ao chefe daquela 
escassa patrulha uma carta pessoal,
 datada de 9 de Maio, onde 
podia ler-se: “(…) continuemos 
serenamente, com calma, mas com
 firmeza a nossa obra. Neste caminho 
encontrarás tu e os teus colegas todo
 o meu apoio o mais rasgado e o mais
 franco, porque considero que só
 assim, dadas as circunstâncias 
em que nos encontramos, poderemos
 fazer alguma cousa boa e útil para
 o nosso País”. D. Carlos queria
 continuarserenamente, quando ia
 reunir todas as razões para a 
instabilidade; e falava também na
 nossa obra, como se tivesse sido
 acometido de uma amnésia súbita,
 olvidando que um monarca
 constitucional reina, mas não governa.
Seguiu-se a tudo isto o decreto de 10 
de Maio de 1907, encerrando 
o parlamento e inaugurando, com toda
 a explicitude, a ditadura de João 
Franco, antecâmara de uma 
tragédia que não demoraria a chegar.


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